Ouvir é o melhor remédio

 

Para quem está com saúde, adoecer parece ser algo remoto. Muitas pessoas não imaginam que isso possa acontecer com elas e, assim, não compreendem a dimensão dos sentimentos de alguém que recebe um diagnóstico de câncer.

O câncer afeta diversos aspectos da vida do paciente, que passa a ter medos e inseguranças nunca antes imaginados. Por isso, conversar com uma criança ou familiar que está com câncer não costuma ser fácil. Mas, quase sempre, tudo que ele mais quer é falar.

Algumas sugestões para ser um bom ouvinte:

  • Mostre disposição para ouvir

Ouvir de um ente querido que ele está sofrendo, é muito doloroso. Fugir da situação é mais fácil, mas não é bom para nenhum dos dois. Ouça o que o paciente tem a dizer e, mais do que isso: demonstre que está com tempo e vontade de escutá-lo.

  • Você não precisa dizer nada

Ouça sem preocupar-se em responder. Não existe uma resposta certa. Se você não sabe o que dizer, é sinal de que não há o que dizer. Nessas situações, um olhar de compreensão pode significar mais do que as palavras podem expressar.

  • Não puxe assunto

Nem sempre o doente quer falar. Às vezes ele prefere conversar sobre assuntos amenos, como o capítulo da novela ou um jogo de futebol. Isso não significa que ele não o considere um bom confidente, apenas que, naquele momento, ele não está disposto a abordar a doença. Por mais ansioso que você possa estar a respeito da saúde do paciente, não faça perguntas ou insinuações que o levem a tocar no assunto. Se quiser, ele vai contar. Caso contrário, mantenha o diálogo normalmente e demonstre-se interessado na conversa.

  • Demonstre compreensão

Se você entende o que o doente quer dizer, faça com que ele se certifique disso. Diga que pode imaginar o que ele está sentindo. Caso você não compreenda seus sentimentos, é melhor ficar em silêncio do que tentar minimizá-los. Dizer “isso não é nada” ou “poderia ser pior” fará com que o paciente se sinta incompreendido.

  • Não desconverse

Se o paciente deseja falar sobre suas dores mais profundas, procure ouvi-lo sem interromper. Se você perceber que não tem estrutura para aguentar, é preferível dizer francamente que não está preparado, do que simplesmente mudar o rumo da conversa ou fazer de conta que não entendeu. Esse tipo de atitude pode fazer com que o paciente se sinta solitário.

  • Evite dar conselhos

Nossa forte tendência a dar palpites pode acabar cortando o canal de comunicação com o doente. O ideal seria ouvir sem opinar, a não ser quando solicitado. Mesmo sabendo disso, muitas vezes nos pegamos falando demais. Se estiver certo de que sua opinião poderá ajudar o paciente, comece perguntando-lhe se ele já pensou a respeito da ideia que deseja transmitir-lhe. Nunca diga “se eu fosse você”, pois ninguém é você.

  • Aceite o humor

Muitos acreditam que humor não combina com tristeza, que não fica bem dar risada quando alguém está doente. Entretanto, o humor pode ser de grande ajuda para lidar com nossos maiores medos. O riso serve para aliviar situações de estresse e afastar pensamentos negativos. Caso o paciente faça piadas a respeito de sua própria doença, mesmo que lhe pareçam de mau gosto, aceite-as; entre na brincadeira, pois assim estará ajudando- o a enfrentar seus momentos difíceis. Isso não significa que você deva tomar a iniciativa de brincar com o assunto; deixe que ele conduza o tom da conversa.

Por mais que tente, é possível que você jamais consiga compreender exatamente o que se passa na cabeça de alguém que está com câncer; mas aceitar suas reações assim mesmo já é uma forma de facilitar a comunicação entre vocês. Dedicar algum tempo para estar ao lado de alguém doente, fará bem para ambos.

 

Dr. José Marcus Rotta


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